O oitavo círculo de Iago
Sobre a maldade sem motivo e a geometria do Inferno.
A tragédia Otelo de Shakespeare retrata a derrocada do general mouro Otelo, maquinada pelo diabólico Iago, que confabula para a destruição de todos, incluindo a sua própria. A história é a seguinte: ressentido por não ter sido promovido à tenente, Iago convence o ingênuo Rodrigo a conspirar contra o mouro, valendo-se do fato de que Rodrigo era apaixonado por Desdêmona, filha de um senador veneziano e que havia enganado o próprio pai para casar-se com Otelo.
Em lugar de Iago, Miguel Cássio havia sido promovido. Cássio era um galanteador, um aristocrata, não um soldado. Portanto, Iago planeja sua queda confabulando que Cássio e Desdêmona eram, de fato, amantes. Agindo com extrema argúcia e contando com golpes de sorte, Iago termina por enlouquecer Otelo de ciúmes, fazendo com que o general asfixie sua esposa e dê ordens a Iago que assassine Miguel Cássio – ordem essa que é repassada à Rodrigo, que fere o tenente na perna mas termina morto no combate. Por fim a armação é revelada por Emília, esposa de Iago e serva de Desdêmona, o que leva Otelo ao suicídio e Iago à prisão.
À primeira vista essa leitura, simples para os padrões de Shakespeare, não traz grandes simbolismos ou análises profundas, a menos de algumas constatações históricas interessantes. Por exemplo, o mouro Otelo, negro cristianizado, transparece múltiplas vezes sua insegurança por não pertencer de fato à sociedade veneziana, europeia e branca. Seu casamento com Desdêmona não é aceito pelo pai da jovem, um nobre senador, mesmo que esse valorizasse Otelo por suas glórias militares. Esse aparente mismatch é explorado por Iago ao convencer Rodrigo de que a união seria passageira, um impulso infantil.
Há também ali uma visão romantizada da mulher como uma tabula rasa, cujas ações, boas ou más, são produto de seu meio e de ações de terceiros. Desse fato bebem diversas autoras feministas que resguardam a pureza da mulher, atribuindo todo mal eventualmente causado ao engenho de outrem, como outrora fizera a serpente com Eva, que logo justificou-se: “A serpente me enganou” – (Gn 3, 13). O pai de Desdêmona recusa-se a acreditar que a filha fugiria com um mouro, julgando-lhe enfeitiçada, e o próprio Otelo ironiza: “Será que esse livro lindo, essa folha branca / Foi feito para que se escrevesse, em cima, “puta”?”
Curiosamente, a serpente da história manipula, na verdade, os homens. Iago é bem-sucedido em todas as suas maquinações, destruindo Otelo, Desdêmona, Cássio e Rodrigo, e – como bem observado pelo ensaio que acompanha a edição da Penguin no Brasil – a si próprio, o que indubitavelmente também era seu objetivo. Isso torna o personagem muito mais complexo, posto que sua maldade parece gratuita, e suas justificativas apresentadas na peça são contraditórias e pouco críveis. Por exemplo, em dado momento ele dá a entender estar sendo motivado por ciúme: “Pois suspeitas tenho de que o Mouro lascivo / Trepou na minha sela, o que só de pensar / Me rói as entranhas como um sal venenoso”. No entanto, seu tratamento dispensado à esposa Emília é tudo menos romântico. Seria apenas orgulho ferido? Isso não combinaria com o tratamento cortês e a retidão com que auxilia – publicamente – o Mouro. Diz-nos Santa Faustina: “o demônio pode ocultar-se até sob o manto da humildade, mas não pode vestir o manto da obediência”.
A chave para as atitudes de Iago parece se revelar em sua última participação na peça, quando, preso pelos oficiais, diz: “Não me perguntem nada. O que sabem, já sabem. Não esperem de mim nem mais uma palavra”. Não à toa o ensaio de W. H. Auden entitula-se O curinga no baralho, pois como o vilão de The Dark Knight, Iago parece comprazer-se do mal pelo mal, sem justificativas: “Some men just want to watch the world burn”.
Eis porque Dante reserva aos embusteiros, maquinadores e mentirosos, o oitavo círculo do inferno. O último, e mais grave, é destinado aos traidores. Na visão do poeta, ambos os círculos são hierarquicamente mais danosos que outros cuja sociedade atual teria dificuldade de entender – como luxúria, ira e violência. A tragédia de Otelo, no entanto, nos explica o porquê. Pois se Cássio é vítima de luxúria, Otelo de ira, e Rodrigo de violência, todos são subordinados às traições de Iago, que em suas próprias ações leva os outros, que o tratam por amigo, à ruína.


