As lamentações de Thomas Mann
Reflexões sobre Doutor Fausto.
Quando decidi, de forma um tanto impetuosa, pela leitura do Doutor Fausto de Thomas Mann, sabia que ali selava o meu destino literário por um bom tempo. Isso a experiência anterior com A Montanha Mágica já havia me ensinado: o bom alemão preza pela narrativa meticulosa, simbólica, filosófica, onde a retórica de seus personagens e o Zeitgeist de sua época se confundem.
Portanto não deveria ser surpresa que pouco mais de 3 meses separaram o início e o fim da leitura (ainda que em dado momento tenha havido um detour com A mulher de 30 anos, mas isso fica para outro dia). Pois bem, sento-me para escrever após ter dado cabo da empreitada, e pretendo aqui repercutir minhas impressões de mais esse romance extraordinário do Nobel de Literatura de 1929.
Preciso começar explicando a motivação para encarar esse calhamaço. Pouco tempo antes eu havia finalizado Os monstros de Hitler, livro interessantíssimo e surpreendente sobre a formação cultural dos alemães do fin de siècle, justamente aqueles que iriam conduzir o país à Primeira Guerra, à Weimar e finalmente ao Terceiro Reich. Ora, se Erik Kurlander narra a formação do imaginário nazista de forma meticulosa ainda que prosaica, Thomas Mann, exilado político na América, despende seu recurso mais poderoso: a poesia.
Pois em Doutor Fausto narra-se a biografia de Adrian Leverkühn, compositor fictício cuja história se confunde com a da própria Alemanha. Acompanhamos a história do malogrado personagem sob a ótica de seu fiel amigo de infância, o humanista Serenus Zeitblom, que faz as vezes do próprio Thomas Mann (assim como outrora o autor servira-se do italiano Settembrini para explorar a dialética humanista).
Portanto, quando Serenus pinta o retrato de Adrian, com uma espécie de amor platônico estranho ao leitor contemporâneo, na verdade é Mann que retrata sua amada Alemanha, a mesma que o desprezou e queimou seus livros, mas que ele nunca abandonou, pois como o próprio autor proferiu em solo americano: ”where I am, there is Germany”.
Digo que a figura de Adrian Leverkühn é “pintada” pois de fato essa é a impressão que fica. Retratando Leverkühn desde a tenra idade, sem compromisso com o tempo e o inconveniente tamanho do livro, Mann, à moda de um pintor, compõe demoradamente as camadas de seu personagem, incluindo episódios que nos ajudam a entender seu caráter. É impossível não se admirar com o zelo com o qual o autor alemão esculpe suas histórias, fazendo da pena um pincel.
Vários são os indícios que entrelaçam a história de Adrian com a da Alemanha. Adrian nasce em berço protestante, assim como a Alemanha. Desde novo, nutre um fascínio pelo satânico, menos por maldade do que por petulância. Isso, é claro, não poderia ser diferente na terra de Goethe. Absorve influências esotéricas, como bem retrata Kurlander em Os monstros de Hitler. Rende-se ao pacto fáustico pelo desejo de ser grande, de erguer-se acima da mediocridade de sua época, convicto de que até mesmo a graça divina não seria suficiente para resgatá-lo e santificá-lo. Recebe seu momento de glória, que se mostra curto demais, custoso demais, e quando seu tempo inexoravelmente chega ao fim, está condenado a passar o resto de sua vida inerme, desprezado, irreconhecível. “Que Deus tenha misericórdia de vossa pobre alma, meu amigo, minha pátria!”, é a última frase do livro, proferida por Serenus e por Mann.
De resto, não me atrevo a fazer qualquer análise simbólica ou literária dessa grande obra, posto que muitos já o fizeram bem antes de mim. É-me difícil, no entanto, ficar alheio às implicações teológicas da narrativa, cuja leitura concluí tem tempos de Quaresma, e que por providência antecedeu justamente a liturgia que retrata a tentação de Nosso Senhor no deserto.
Ora, Leverkühn, ainda aos 21 anos, vítima de fervorosas febres e ataques de enxaqueca, realiza seu pacto fatal, vendendo sua alma pelo prazo de 24 anos, em troca do sucesso de seus empreendimentos e suas composições, ainda que sob a condição de não poder amar ninguém senão seu terrível mestre e tirano. Vivendo como ermitão e conviva da doença, Adrian dedica às suas obras um forte caráter religioso, como visto no Apocalipsis cum figuris, e n’As lamentações de Doutor Fausto, composição profundamente escatológica e que termina por exaurir todas as forças do autor.
Assim que termina aquela que seria sua última obra, Adrian convoca todos os poucos que fizeram parte de sua vida para uma espécie de confissão pública – uma perversão do sacramento cristão – onde revela o pacto que outrora fizera. De fato, toda a história é salpicada por perversões mefistofélicas, inclusive algumas explicitamente reconhecidas pelo próprio Serenus em passagens das Lamentações (em certo trecho o personagem da obra de Adrian despede seus amigos na hora de sua maior agonia, em contraposição com o ”Velai comigo” de Jesus às vésperas da Paixão).
Portanto, julgo irrelevante questionar se o pacto de fato existiu, como alguns discutem enfadonhamente. O argumento é simples: quando relatou-o, por meio de uma carta ao amigo Serenus, o compositor sofria de febre e enxaqueca e certamente delirava. Ora, isso seria o mesmo que afirmar que o que Jesus passou no deserto foi delírio de um homem jejuando por 40 dias! E quem ousará discordar que o diabo se aproxima nos momentos de maior fraqueza, seja física ou espiritual?
Mas se Nosso Senhor repele o Mal com sua autoridade divina, o mesmo não podemos dizer de Adrian. Não, ele consente, aceita, cede, quase que despreocupadamente, sem pompa, como ele mesmo vem a advertir os convidados de sua apresentação derradeira:
Não penseis, meus caros manos e manas, que, para a promessa e a estipulação das condições do pacto, eu tenha necessitado de uma encruzilhada na floresta, de pentagramas mágicos e grosseiras conjurações. Pois o próprio São Tomás já nos ensina que, para a apostasia, não se carece de palavras invocadoras, senão basta qualquer ato, até sem nenhuma homenagem explícita.
Eis então a verdadeira lição de Adrian Leverkühn, que ao coração de um humanista como Thomas Mann deveria soar doloroso demais: o Mal não se combate de forma frouxa e omissa, mas com palavras e atitudes enérgicas, como a do Cristo que ergue sua voz, imperativo: ”Vai-te embora, Satanás” (Mt 4, 10). Sim, o pecado de Adrian se confunde com o da Alemanha, que em seu delírio de grandeza vislumbrou todos os reinos do mundo e sua glória, e, complacente, ajoelhou-se diante dele.


